Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

MEMÓRIAS DE NINGUÉM

 

 

 

ser

 

Sou um homem racional, de cinquenta anos... um filho, um neto e até pai já fui um dia... tão longínquo como a minha memória...

"Sou" primeira pessoa do singular do verbo "ser" no presente do indicativo, apenas isso sou, há muito que deixei de ser o que quer que fosse. O meu corpo pesa toneladas de vida, marcadas nas costas curvadas das enxadas que cavaram o chão que piso... o chão onde quero morrer...

fui

 

Há muito tempo atrás, já nem sequer me lembro precisamente quanto... fui um rapaz que cheio de sonhos se entregava pela primeira vez a uma mulher, mulher que viria a ser o meu amor, o meu eterno amor. Casámos com um namoro relativamente curto (para a época), mas longo, longuíssimo... marcado pela fria distância de uma guerra que não nos pertencia, mas que nos arrastava com ela.

Sofremos à distância profunda de um mar descoberto e de um céu ainda por descobrir. Eu sentia todos os dias a morte rondando-me a beira da cama, acompanhada pela sádica melodia dos tiros... dos gritos (da gente que na mais vil missão matava ou deixava-se matar)... e ainda hoje dou comigo anos desperto sem cerrar os olhos, sem os conseguir cerrar, sem os querer cerrar... desperto, sempre desperto com receio de não mais os abrir, com receio daqueles sons lá longe e ao mesmo tempo tão cá dentro...dentro, dentro, dentro... tão cá dentro de mim... Mas nessas noites, dias... de morte queria-te mulher, porque já te sentia minha mulher, sim eras de facto já a minha mulher, minha mulher, meu amor... e sabia, sim sabia que ela me sofria pela angústia sofucante de um silêncio, de uma ausência... de um existir numa inexistência voraz que dia-a-dia lhe dava a mão...

E a dúvida impunha-se na minha cabeça, bem como no coração apertado...a minha mulher, "porque estamos separados?porquê a guerra?", porquês atrás de porquês, sem resposta sonora... apenas a certeza de que ela me esperava, de que ela estava ao meu lado embora nem eu nem ela entendessemos a guerra, a guerra que nos apanhou... mas nós sabiamos que desde os mais remotos tempos por um pedaço de chão, o homem matava a sangue frio, sem perdão, não por imposição da História, não por um papel político, não por uma acção social mas sim pelo ponto obscuro de querer sempre mais...

Depois de um tempo perdido no próprio tempo, de tantas ânsias e terrores... o meu corpo dorido, MAS VIVO, regressava a casa...

Finalmente um regresso a casa, quando já nem do caminho me recordava... chegar "à minha pátria" e não reconhecer nada ("será que me terei enganado? será que se enganaram? não é o regresso é um deslocamento no terreno de guerra")... mas sim um regresso a um tempo, ao meu tempo, ao nosso tempo de amor... a tua voz, amor, de entre tantas tantas tantas vozes... a tua voz... e num abraço sem palavras comemorámos o regresso da morte e da vida, comemorámos o regresso da vitória derrotada, comemorámos o fim.

Abracei-te com todas as forças que me restavam, abracei-te na dor do corpo e alma, para ter a certeza de que te tinha mesmo nos meus braços... aquela dor outrora amarga agora doce porque eras tu nas minhas feridas, senti o teu calor, olhei o teu rosto que me olhava tão profundamente como se só me olhando me recuperasse da morte, e nasceram-nos as lágrimas, rebentaram em explosões...e assim nas lágrimas tivemo-nos por todas as vidas que aquele tempo nos roubou... e por todas as incógnitas que nos esperavam...

re-definições

 

Nos primeiros dias tudo estranho, menos o teu corpo, esse que me acolheu no seu ventre e me adormeceu para que os gritos de morte não me roubassem outra vez...

Nas ruas, sem corpos prostrados no chão, sem ordens para matar,habituando-me aos odores de outros tempos, a vozes de vida, os meus passos de estranho numa terra outrora minha e agora estranha... o meu berço quebrado. Sentia-me estranho mas bem, infinitamente bem, com a doce mão do amor mostrando-me um e outro edíficio de que nada restava na minha memória mas que neste "meu" país marcava o ponto de partida daquele tempo sem tempo...

E assim fui caminhando solitário nas feridas que ninguém via, recomeçando-me como um puzzle a que alguém impôs um recomeço abrupto e com peças totalmente alteradas...aprendi a trabalhar de vida para a vida, apagando a memória ensanguentada que se marcava na pele. Mas a graça fez-me pai, só o meu amor me poderia dar uma felicidade que ultrapassava todo o passado presente e futuro...

O teu ventre tão pequenino, quase ilusório... engrandeceu de vida,abriu-se em flor, sob a mais ténue camisa surgia aquele teu, nosso... monte de vida, repleto de uma Primavera (quase infantil) que nos rasgava um sorriso capaz de abarcar o Universo.

Em gemidos de dor vi o teu corpo a dar vida ao nosso amor. Um corpito pequeno, ensanguentado, que rapidamente abriu os pulmões à vida e chorou... chorou...

Beijei o teu suor e mostrei-te a nossa cria...

Os dias nunca esperam por nós, e na rapidez da vida... o momento mágico do nosso amor cresceu palmo a palmo, criança homem nos nossos braços.

Depois do trabalho chegava a casa, recebias-me com um simples beijo e vias-me despir o adulto quando despia o casaco... e deixavas-te sonhar acordada com as tuas pequenas crianças desarrumando os berlindes, os carrinhos e sorrindo como se a vida fosse acabar em breves segundos e tudo o que queria levar comigo era o teu rosto sereno e o nosso pequeno amor a sorrir-nos, esvoaçando nos nossos braços...

Ano após ano, o nosso pequeno a querer respostas...e tu, tantas vezes coravas como se o rapaz quissesse descobrir todos os nossos segredos e desvendar todos os mistérios do mundo...

O nosso pequeno deixou de ser pequeno, deixou de caber nos nossos sonhos... e começou ele a ter os seus sonhos, a construir a sua vida... e nós pequenos cada vez mais pequenos na pequenez da vida, os nossos corpos curvavam-se de um peso que não era nosso, o nosso rosto envelheceu séculos em anos, os nossos cabelos perderam a cor ou melhor ganharam pouco a pouco a cor do céu... e o nosso pequeno, esse pequeno tão grande aos nossos olhos e aos nossos corações. Ele partiu!

Universidade, foi para uma cidade que tanto perto, tanto longe... era sempre longe de nós...

Mas ele sempre foi um bom menino, viamo-nos pouco vezes mas quando nos viamos ele continuava o nosso pequeno, e nós jovens...

 

 


publicado por uriel_arcanjo às 11:07
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